500 mil mortes e o desgoverno de Bolsonaro

Na última semana o Brasil alcançou a triste marca das 500 mil mortes causadas pela Covid-19. Em termos de vidas perdidas, o Brasil se encontra atrás apenas dos Estados Unidos que, apesar de terem registrado 600 mil mortes, estão em uma trajetória de queda acelerada do contágio desde março de 2021. Na Índia, em que o número de contaminados atingiu 30 milhões, portanto, acima dos 18,1 milhões do Brasil, o número de mortes está em 391 mil pessoas. Ou seja, a pandemia no Brasil tem se mostrado expressivamente mais letal que nos demais países, a ponto de o Brasil possuir 2,7% da população mundial e ser responsável por 12,9% das mortes por Covid-19 no mundo.

Estes números alarmantes não são produto de uma predisposição ou fragilidade biológica da população brasileira frente ao vírus. Estes dados retratam o desastre do governo Bolsonaro na política de enfrentamento à pandemia, que não poucas vezes se mostrou em verdade uma política de promoção da pandemia. O atual cenário é consequência de uma política negacionista, que desde o início minimizou a letalidade do vírus (nas palavras de Bolsonaro, “gripezinha”, “país de maricas”, “idiotas que até hoje ficam em casa”), apostou na chamada imunidade de rebanho via contágio, promoveu aglomerações, recusou incontáveis ofertas de vacina e difundiu um comprovadamente ineficaz “tratamento precoce”.

O negacionismo do governo Bolsonaro esteve amparado no discurso de que era preciso “salvar a economia, porque economia é vida”. Sustentando-se em um falso dilema de salvação da economia em oposição às medidas de distanciamento social, Bolsonaro fracassou em ambas as áreas. O desemprego no país alcançou a taxa recorde de 14,7% no primeiro trimestre de 2021, o que corresponde a 14,8 milhões de desempregados. A inflação medida pelo INPC assumiu marcha acelerada chegando a 8,9% no acumulado dos últimos 12 meses. Quando olhamos para a inflação de alimentos, que ocupa uma maior parcela da renda das famílias vulneráveis, a situação é ainda mais crítica. O grupo “Alimentação e Bebidas” teve uma alta de 13,5% no último ano e o preço da cesta básica na capital paulista cresceu 14,4% no mesmo período.

Este cenário aprofundou o abismo da desigualdade social e da pobreza no Brasil, especialmente em relação à população negra, às mulheres e à juventude. Em quaisquer dos indicadores de renda, emprego e jornada de trabalho, estes grupos se encontram em uma situação mais precarizada. A sobrecarga de trabalho não remunerado imposta às mulheres tem se mostrado cada vez mais evidente, assim como a violência doméstica que se agravou durante à pandemia. A população negra sofre ainda com uma maior dificuldade de acesso à vacinação (segundo a Agência Pública, “Brasil vacina duas vezes mais pessoas brancas do que negras”), mesmo estando estatisticamente mais exposta à contaminação e tendo registrado um maior número de óbitos por doenças respiratórias no último ano.

A gravidade deste quadro político e econômico nos leva a refletir sobre o papel do Movimento Sindical na conjuntura atual. Por mais atacado que tenha sido o Movimento Sindical desde a Reforma Trabalhista de 2017, a pandemia escancarou a importância das entidades sindicais para a democracia brasileira, que assumiu seu protagonismo nos processos negociais e contribuiu decisivamente para a preservação de condições dignas de trabalho, para a manutenção do emprego e da renda. Diferente do governo, os sindicatos estão na linha de frente do combate à pandemia, tanto na disponibilização de suas estruturas físicas quanto nas campanhas de solidariedade no combate à fome.

Este enraizamento do Movimento Sindical em todo a sociedade brasileira nos permite aprofundar o debate político sobre a importância da disputa eleitoral de 2022. Temos de combater o negacionismo autoritário que recusa ofertas de vacinas, que naturaliza a morte de milhares de pessoas, que insiste na precarização e privatização do SUS, que esvazia os investimentos em educação e que promove a destruição das áreas de preservação ambiental. A alternativa proposta pelo Movimento Sindical passa necessariamente pelo diálogo, pela unidade e pela democracia. Uma construção amparada pelas bases populares que reivindica a solidariedade, o resgate da humanidade, o combate à miséria, a geração de emprego, renda e a conquista de direitos sociais e trabalhistas.

Sergio Luiz Leite, Serginho
Presidente da FEQUIMFAR e
1º secretário da Força Sindical

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