Editorial – Setembro 2015

A miopia das ações do governo brasileiro, na tentativa de tornar o ajuste econômico em instrumento de saída da atual crise política e econômica, é notória. A velha cartilha do FMI não serviu para nenhum país do mundo sair da crise.

Seu único objetivo é garantir aos chamados investidores, altas taxas de lucratividade, com risco zero, em detrimento da qualidade de vida da população. A taxa de juros básicos de 14,25% ao ano do Brasil é a maior do mundo. Para se ter uma noção comparativa do absurdo que é a nossa taxa: nos EUA é de zero a 0,25% ao ano; no Japão é 0,10%; na Suíça é negativa e que, para deixar dinheiro no banco, o investidor paga até 0,75% ao ano.

Desde março de 2013 até agora, a taxa básica de juros já foi elevada em sete pontos percentuais, a um custo superior de mais de R$ 250 bilhões a cada 12 meses, uma vez que, segundo economistas, cada ponto percentual tem impacto de R$ 30 bilhões na dívida, só neste ano, os pagamentos de juros da dívida, com essa taxa elevada, vão custar ao governo até R$ 430 bilhões. Nos últimos três anos, de 2013 até o fim de 2015, o total de gastos com juros atingirá R$ 1,038 trilhão, aproximadamente ¼ do PIB brasileiro. Uma sangria financeira sem precedentes no mundo, que precariza o trabalho gerando desemprego. Lembre-se, o trabalhador é a parte mais importante da produção, mas ele não é dono dos meios de produção, tendo como oferta e forma de sobrevivência, apenas a sua força de trabalho.

O Estado de São Paulo é o ambiente de trabalho mais sensível às oscilações econômicas, provocadas por decisões erradas do governo. O motor produtivo do país e da América latina, está aqui. Não há no mundo e nem aqui, empresário que arrisque em produção, com uma ciranda financeira tão previsível de ganhos para quem detém o capital. Esse valor estratosférico de R$ 1,038 trilhão está sendo pago a investidores, locais e estrangeiros, que aplicam em títulos do governo. Dinheiro ganho sem mover uma palha, sem fabricar um alfinete.

A grande mídia noticiou, que a taxa de juros de cartão de crédito atingiu 372% ao ano em junho. Não existe nada semelhante em matéria de custo de dinheiro no mundo civilizado. Trata-se de uma exclusividade brasileira, e ninguém se manifesta contra. O governo federal tem uma dívida de R$ 3,6 trilhões e pagamos R$ 430 bilhões de juros por ano para mantê-la, embora uma parte desse valor decorra de variação cambial. Mas, se houvesse um simples corte de dois pontos percentuais nos juros, já haveria um ganho de uns R$ 60 bilhões, valor quase do tamanho do ajuste fiscal pretendido no início do ano.

O aumento dos juros, segundo o governo, é para reduzir a inflação. A contradição da retórica é que desde março de 2013 a inflação só subiu. Passou de cerca de 6% para quase 10% em 12 meses. O problema é que a alta dos juros, segundo as teorias econômicas, serve para reduzir a demanda, o que força a queda dos preços. Mas, no caso do Brasil, o grosso da inflação atual decorre dos reajustes de preços administrados, como luz, gasolina, água etc., que não têm relação com demanda. Juros de 14,25% ao ano só interessa a quem vive de renda. Quem investe em produção só perde com isso. Associados ao programa de austeridade, esses juros vão produzir uma recessão absurda.

Precisamos desconstruir a tendência de considerar normais essas aberrações dos juros. Nele reside à escola de baixa qualidade, a aposentadoria que não dá para nada, à saúde precária, a insegurança, a péssima infraestrutura, o transporte horroroso e moradias em local onde não mora ninguém. Nele reside o desemprego, a abaixa produtividade, o empobrecimento dos trabalhadores e das entidades que os representam. A luta de classe não pode ser observada como um tema meramente histórico. Ela é real, atual e sempre existirá. A ação dos sindicatos em proteger todas as conquistas dos trabalhadores nos últimos anos, torna-se fundamental, num contra ponto aos que querem nos fazer engolir goela a baixo, medidas erráticas do salve-se quem puder do governo. Não devemos nos questionar para onde vamos, mas decidir o que queremos como destino. O que está acontecendo nesse momento não é normal.

Mudanças são urgentes, por que esperar?

Danilo Pereira da Silva
Presidente da Força Sindical de São Paulo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *