Polícia no desfile de Herchcovitch expõe abusos da indústria fashion

Fonte: Folha de S. Paulo

Fiscais e PMs entraram em evento no Masp após denúncia de falta de pagamentos aos modelos

O que era para ser um dos desfiles mais importantes do ano para a moda brasileira virou caso de polícia e o estopim de uma discussão sussurrada havia tempo nos bastidores da indústria.

Fiscais do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de São Paulo, o Sated, tentaram entrar no camarim do desfile da grife À La Garçonne, no Masp, na segunda-feira (13), para cobrar de seus representantes, o empresário Fábio Souza e o estilista Alexandre Herchcovitch, explicações sobre a situação contratual dos modelos escalados.

Impedidos pela produção do evento de entrarem no museu, os representantes da entidade sindical chamaram a polícia no final do desfile para averiguar contratos. Isso aconteceu após uma denúncia feita por três agências de modelos de que a marca havia contratado jovens do interior paulista sem registro profissional com o intuito de burlar os valores cobrados na capital.

Um terço dos participantes do evento foi selecionado via redes sociais e em locais por onde Herchcovitch passou. Em troca do flash, cada um receberia o look desfilado.

Pouco antes da confusão, o estilista disse ser praxe escalar nomes de fora do circuito. Após o ocorrido, por volta do meio-dia, ele não quis mais se manifestar sobre o assunto.

O fato é que, de acordo com uma lei promulgada em 1978 e conhecida como “lei do artista”, qualquer pessoa que preste serviço como “manequim”, como era chamado o ofício, precisa de registro na Delegacia Regional do Trabalho, a DRT, e uma nota contratual para exercer a função.

Depois do imbróglio, um boletim de ocorrência foi feito e será encaminhado nos próximos dias ao Ministério Público do Trabalho junto a uma denúncia formal.

De acordo com a assessora jurídica do Sated, Marta Macruz, a marca teria se aproveitado “do sonho de pessoas em vir à cidade com a promessa de se tornar celebridade, oferecendo serviços de graça ou sem remuneração adequada”.

Ela vê com ressalvas a contratação de pessoas sem registro com a desculpa de “exaltar a diversidade”, lembrando a justificativa da marca. “Uma coisa é chamar poucos amigos para desfilar, outra é chamar mais de 20 pessoas sem pagar cachê. Não é uma festa, é trabalho”, diz a advogada.

Também de acordo com ela, os modelos profissionais que participaram do evento receberiam R$ 300 sem os descontos da agência. A grife de Herchcovitch disse que faria os pagamentos em três meses.

Já seria uma vitória. O período de crise que a moda brasileira atravessa revelou uma face oculta da profissão de modelo. Nos últimos anos, atrasos e calotes se tornaram cada vez mais comuns. Tudo indica também que a velha prática de trocar trabalho por roupas voltou a fazer parte da realidade dos aspirantes a estrela.

Por medo de se “queimarem” no mercado, tanto as garotas quanto as agências silenciam quando questionadas sobre os atrasos, que podem chegar a até seis meses.

Em maio, a top Ellen Milgrau decidiu falar publicamente sobre o assunto. Num post no Instagram, explicou por que não participa mais da São Paulo Fashion Week, mostrando um comprovante de que a marca Lenny Niemeyer não havia pagado o seu cachê de quase um ano atrás.

Representantes da grife em questão disseram que a responsabilidade pelo pagamento era da Luminosidade, patrocinadora do desfile.

Essa empresa era, até a temporada passada, a dona da própria São Paulo Fashion Week.

Em nota, representantes do evento disseram que a crise econômica obrigou a revisão de prazos de pagamentos.

Milgrau, no entanto, discorda dessa versão dos fatos. “As modelos só recebem após cobranças constantes por parte das agências”, diz.

As marcas segurariam o pagamento da temporada anterior até o ultimo minuto antes da prova de roupa da estação seguinte.

“Há um entendimento de que as marcas que desfilam na SPFW são fodas, que dão visibilidade. Mas eles estão cagando para nós [modelos].”

Top de renome, ela ganha mais do que os valores estipulados na tabela informal usada por agências para cobrar pelos trabalhos de passarela.

Esses valores variam entre A, B e C. A mais barata, a C, custa R$ 800 mais 20% da taxa da agência e costuma pagar as “new faces”, ou modelos em início de carreira no jargão fashionista. Tanto nos desfiles de Herchcovitch quanto nos de grande parte das marcas que desfilam na SPFW, os novatos são a maioria.

O Sated afirma que mudará esse entendimento. As agências e os modelos estão se reunindo para reformular os valores, que sofrerão reajustes no próximo mês de outubro.

“Esse é um mercado de ilusões. Meninas que não podem bancar a subsistência são enganadas por marcas que não pagam pelo trabalho. Isso irá mudar”, diz o novo presidente do Sated, Dorberto Carvalho.

Marca nega infrações e diz que lei não é clara sobre ‘não modelos’

Outro Lado

A grife À La Garçonne negou irregularidades. O diretor do desfile no Masp, Bill McIntyre, disse que todos os participantes assinaram uma carta autorizando o uso da imagem e concordaram com o pagamento em roupas da marca.

Ainda de acordo com McIntyre, os não modelos foram escalados porque não teriam pretensão de ser profissionais. Eles participariam de um desfile que “representa a diversidade”, já que têm uma aparência, segundo ele, que “não se encontra em agências”.

A advogada da marca, Bruna Lins, disse à Folha que “não há lei que impeça pessoas não profissionais e apenas convidadas pela marca de desfilarem sem receber” um cachê.

Procurados, Herchcovitch e a À La Garçonne repetiram, em nota, a fala da advogada.

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